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Curso de extensão: Carolina Maria de Jesus: uma intelectual visceral

Enviado por George em sab, 30/01/2016 - 00:10

Realização: Grupo de Pesquisa Alfavela - IEAR/UFF

Público: Professores, estudantes, ativistas sociais e demais interessados

Caracterização: Este  Curso  é  uma  Extensão  das  atividades  de  pesquisa  do  Grupo  ALFAVELA- IEAR/UFF e tem uma carga horária de 60 horas de duração.

Há aproximadamente cinco anos o Grupo de Pesquisa ALFAVELA-IEAR/UFF vem  realizando  suas  pesquisas  no  Campo  da  Educação.  Um  dos  seus  enfoques principais  lança  luz  sobre  algumas  situações  recorrentes  do  cotidiano  (sejam  elas obtidas por via de observações diretas, sejam por análises de documentos, de narrativas ou de literaturas) que ofereçam   a possibilidade de enxergarmos um pouco melhor aquilo que Vygotsky denominou de Microgênese das histórias individuais. Ou seja, parafraseando o eminente autor, e enriquecendo a nossa justificativa: a história das “coisas miúdas” (as microgêneses) tem um valor indispensável para a compreensão das “coisas graúdas” (a História em si). Tentar entender essas “coisas” é ao mesmo tempo entranhar-se por entre “becos e vielas” de uma História “Mal-dita”.

Podemos afirmar, ainda que não conclusivamente, mas fundamentado em nossas pesquisas, que nos caminhos sinuosos traçados pelas classes populares emergem elementos cruciais para a compreensão (quiçá superação) dos processos estruturantes que sustentam alguns dos pilares das injustiças sociais e que insistem em nos desafiar (ou melhor, nos envergonhar) como educadores, com suas permanências.

Cabe ressaltar que tais injustiças são fenômenos mapeáveis e nomináveis: (1) Racismo e as questões de Gênero; (2) Favelas e as diversas violências cotidianas; (3) a segregação de brilhantes artistas e intelectuais (como a própria Carolina de Jesus), fazendo com que desperdicemos riquíssimas experiências e façamos surgir o que hoje muitos denominam (e até mesmo se autodenominam) de “Arte Marginal” ou “Literatura Marginal”;  (4) e, ainda, a questão do analfabetismo que, entre outros aspectos, nos leva a focar o olhar, com estrita atenção, na relação que se estabelece entre as escolas públicas e as classes populares que por elas são atendidas.

Assim, para tentar melhor compreender como se dão as relações de opressão e subalternidade que se estendem às várias esferas da produção social-cultural-política que envolvem a nossa constituição como nação, justifica-se um profundo mergulho na vasta produção literária e analítica de uma intelectual visceral (vide SILVA, 2012) que conformou em si mesma os múltiplos impactos (ou resultados) desse Brasil injusto e desigual em todos os sentidos. Portanto, realizar um Curso de Extensão para estudar Carolina Maria de Jesus é um dever da Universidade Pública Brasileira. Conhecer a obra de Carolina Maria de Jesus é estudar o Brasil por dentro, ou por baixo, como nos ensinou o Grande Mestre Miltom Santos.

Porém, para tanto, faz-se mister um empreendimento difícil e complexo, mas, extremamente necessário. Nosso Curso será   realizado pela Universidade Federal Fluminense, contudo utilizando uma praça pública, em Angra dos Reis, como lócus da aula. Com a colaboração de integrantes de movimentos sociais e professoras das escolas públicas da Região, realizaremos as aulas na Praça Zumbi dos Palmares, no centro de Angra dos Reis, com a lousa apoiada aos pés da estátua de Zumbi. O simbolismo aqui é muito importante porque a nossa História oficial foi consolidada em cima de símbolos que retroalimentam o que Quijano denominou de Colonialidade do Poder, do saber e do ser.

Visamos, portanto, não somente empreender um estudo “da moda” e/ou novas investigações, mas, para muito além disso, objetivamos contribuir para a desconstrução de Colonialidades e auxiliar na construção de novas ferramentas conceituais que possibilitem a formação-conformação de robustas mentalidades que se convertam em práticas de lutas, de resistências e, sobretudo, de re-existências. Oxalá esse Curso possa dar a sua contribuição de fato para ampliar nossos conhecimentos acerca de uma realidade brasileira e ampliar a potência de uma Pedagogia dos Oprimidos que muitas vezes foi escamoteada sob os escombros da nossa herança escravocrata e na cruel situação socioeconômica que permanece afligindo as populações negra, indígenas e seus descendentes que, predominantemente, formam as classes populares desse país.

Fundamentação Teórica

O curso está estruturado em dois pilares de referenciais teóricos: o primeiro, e mais  importante,  correspondendo  à  bibliografia  básica,  de  leitura  obrigatória,  diz respeito aos dois livros mais importantes da autora, para o escopo do Curso:  a) “Quarto de despejo: diário de uma favelada”; e b) “Casa de alvenaria: diario de uma ex – favelada”; incluindo-se ainda um livro analítico de Joel Rufino: “Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável”. O segundo pilar de referenciais é mais de caráter complementar e envolve desde as Obras da autora tais como: “Fome”; “Antologia Pessoal”; “Provérbios”; “Onde estaes Felicidade?”, até pesquisas biográficas e teses que a ela se referem como: “Muito bem, Carolina: biografia de Carolina de Jesus”; “Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus”. Incluem-se ainda neste rol mais dois livros que dialogam com a temática: “Geografia da fome”  “Escola-favela e favela- escola: esse menino não tem jeito”.

 

Objetivos

Afirmar a relevância da escritora Carolina Maria de Jesus como representante intelectual, reconhecendo suas obras como fundamentais para discutir seriamente a realidade brasileira, principalmente nos Campos da História do Brasil; da Sociologia e da Antropologia das favelas e periferias; da Pedagogia, fundamentalmente no que tange à Alfabetização das classes populares; e da Arte, naquilo a que hoje se tem denominado “Literatura Marginal” ou “Arte Marginal”.

Objetivos específicos: Estudar e divulgar os escritos de Carolina Maria de Jesus;  Propor a inclusão de seus escritos no rol de textos utilizados no currículo e no cotidiano escolar; Ampliar a formação dos professores e dos militantes sociais que atuam no Campo da Educação, seja ela formal ou popular.

Metodologia

O curso será oferecido em dez encontros mensais, de março a dezembro de 2016, com uma estrutura curricular organizada a partir de quatro Eixos Temáticos: a) Raça e Gênero - uma herança escravocrata e patriarcal; b) Alfabetização - a escrita como a arma mais letal da favela; c) Favelas e as Violências cotidianas – Uma história sem fim?; d) A Arte transcende o “Quarto de despejo”. Já no que tange à didática de ensino de cada Encontro-aula, a proposta é uma atividade planejada e ministrada de forma coletiva envolvendo a participação de todo o corpo docente que estiver presente no respectivo Encontro. Ou seja, a ideia é a de que, numa única aula, haja mais de um docente   ministrando   (em   dupla,   em   trio,   em   quarteto)   de   maneira   que   haja atravessamentos de atividades tanto no que diz respeito às análises e problematizações oriundas dos textos indicados, quanto nas propostas de cunho artístico como música, pintura, dança e etc.  No fim de cada Encontro-aula será proposto um trabalho para casa a ser realizado no intervalo que antecede o próximo Encontro-aula.

 

 

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