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Uma câmera na mão e histórias para contar: ajudando a superar obstáculos de aprendizado escolar

Enviado por George em seg, 03/07/2017 - 10:20

Vilma Homero

 

A estrada é de terra, e não é fácil chegar lá. Pelo caminho, dá para ver aqui e ali ossos de animais. A casa, toda gradeada e pintada em azul e branco, não tem nenhuma indicação de que ali funciona uma escola. O telhado é de amianto, o que torna o calor insuportável nos dias quentes. Mas o pior é que, como em muitas casas das redondezas, o abastecimento de água é incerto. O que significa que no banheiro dos alunos a falta de água é uma constante. Em condições tão adversas, manter a atenção e o interesse em aprender é muito, muito difícil. Não é por acaso que muitos alunos por ali – e em outras escolas parecidas – não conseguem aprender a ler ou a escrever. Mas isso parece estar ficando no passado. Usar uma câmera na mão, como alternativa complementar ao lápis e papel, pode fazer com que os estudantes mudem esse roteiro e superem as dificuldades da leitura e da escrita para contar suas próprias histórias.

A tese do grupo de pesquisas Alfavela, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto de Educação de Angra dos Reis (UFF/Iear), vem se mostrando bem-sucedida e a razão para isso cabe em apenas uma palavra: motivação. É como o professor Rodrigo Torquato da Silva, da UFF, e coordenador do grupo, explica: “Para crianças habituadas à predominância da oralidade, é muito difícil dar conta e dominar os signos da escrita, ainda mais em condições tão precárias. Por outro lado, ter uma câmera na mão possibilita uma outra forma de expressão, o audiovisual. Isso os motiva a contar suas próprias histórias. Na Argentina, por exemplo, o cinema já faz parte do currículo escolar infantil.”

De câmera em punho, os estudantes Erick e Adrian gravam as histórias
que querem contar e vão superando as dificuldades do aprendizado da
leitura e da escrita
 (Foto: Divulgação/Adriano C. Batista) 

 

Torquato sabe bem do que está falando. Com o grupo Alfavela, eles apresentaram, no início de junho, o resultado de seu trabalho com o projeto "Imagem, Som e Alfabetização" no IX Seminário Internacional "As Redes Educativas e As Tecnologias", na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Intitulado "No Caminho dos Ossos – a escola desenterrando-se", o artigo-imagem acompanhou o desenrolar da pesquisa longitudinal realizada a partir de 2012, com fomento da FAPERJ. O filme, de 30 minutos, mostra como uma câmera conseguiu fazer com que os estudantes se interessassem em aprender.

Para os bons resultados apresentados não foi preciso muito. “Tivemos os recursos do edital Apoio à Melhoria do Ensino nas Escolas Públicas, da FAPERJ, o que não foi um investimento financeiro alto. Isso possibilita que projetos semelhantes possam ser desenvolvidos em várias escolas”, acrescenta o professor. 

Contar as próprias histórias foi o começo. E uma das histórias que os alunos queriam contar, por sinal, foi justamente sobre a escola que frequentam no bairro que, por ironia, se chama Bom Retiro, em Caxias, na Baixada Fluminense. No Caminho dos Ossos mostra o trajeto até o colégio, o acesso difícil por aquele mesmo caminho de terra, com pouquíssimas moradias por perto, onde se veem ossadas de animais e muito mato. Foi também o modo como os alunos expressaram suas críticas contra a situação. “Para quem planeja o currículo no conforto de escolas bem aparelhadas, em bairros com infraestrutura, eles nos deram uma aula de realidade”, admite o professor Torquato. 

Com a motivação de gravar suas experiências em vídeo, os estudantes também se deram conta de que precisavam dominar muito mais coisas além de enquadramento, luz e manejo da câmera. Para passar para imagens as ideias que tinham na cabeça precisavam de roteiro. Mas como escrever o roteiro, sem dominar a escrita e a leitura? “Isso fez cair a ficha. Eles logo compreenderam que podiam gravar suas experiências em imagem e som, mas que só isso não bastava. Compreenderam na prática a necessidade de saber ler e escrever. Até mesmo para pequenas atividades do cotidiano, como passar uma mensagem por Whatsapp que fosse além dos emoticons”, fala Torquato.

Em sala de aula, os estudantes escrevem o roteiro do vídeo, com o
professor Heitor Collet Ferreira 
(Foto: Divulgação/Adriano C. Batista)

 

Para isso, todas as aulas juntavam um pouco de cada coisa: imagem, leitura, áudio e escrita. No final, todos faziam a avaliação de como tinha sido o dia, se rendera o esperado, se faltara investir mais em uma das áreas. “A motivação foi o impulso inicial; com ela, despertamos nesses estudantes três aspectos: a atenção arbitrária, que nada mais é do que o foco naquilo que está sendo realizado; e que exige memória lógica, que consiste em lembrar o raciocínio traçado para se chegar a determinado ponto; e a capacidade de comparação, que ajuda a aguçar a capacidade crítica. Tudo isso mostrou como todo aquele aprendizado de leitura e escrita fazia sentido”, explica o professor.

Motivados, os alunos deixaram de faltar às aulas, mostraram-se empenhados em aprender e, no processo, fizeram grandes avanços. “Vários deles começaram a escrever o roteiro. Os que ainda não conseguiam, desenhavam o storyboard. O importante foi a mudança do desinteresse e da apatia para manterem o foco em todo esse processo”, analisa Torquato. Ele dá o exemplo de Tales, aluno da primeira fase do projeto em Niterói, que, quando aparecia na escola, não tinha vergonha em afirmar: “Odeio a escola. Odeio estar aqui.” Mas que, um ano mais tarde, foi ele quem escreveu as onze páginas de roteiro para o vídeo que queria exibir. 

Mas para que tudo isso aconteça, também é preciso contar com a adesão de professores, equipe escolar e secretarias municipais de Educação para promover uma ruptura com o modelo vigente de mero “palestrante” em frente à turma. “Dar oportunidade para que a criança crie seus próprios textos e ultrapasse os muros da escola muitas vezes surpreende. Em um dos colégios em que estivemos, numa área de conflitos entre traficantes e muita violência, apostávamos que os alunos reproduziriam esse cotidiano. A surpresa foi ver que eles preferiram a poesia. “Quero filmar a história da minha égua”, declarou um deles.

Da mesma maneira, os estudantes do bairro Bom Retiro que os conduziram pelo caminho dos ossos, como o lugar é chamado, também fizeram questão de exibir depois o outro lado da moeda: a casa da primeira rezadeira do lugar, mulher quase centenária que estava na lembrança de vários deles, a beleza do ninho de maritacas, que ficava em um buraco inimaginável no morro que surgira como resultado da atividade humana e ainda subir uma colina para ver o Cristo Redentor no alto de uma montanha longínqua, na Zona nobre do Rio de Janeiro. “Eles nos fizeram olhar para o bairro que os cerca até a visão do Cristo, quase como uma aposta na esperança. E criaram imagens com potência para mostrar tudo isso”, resumiu Torquato. E acrescentou: “Eles se mostram dispostos. Também temos que apostar neles."

 

 

Matéria original: clique aqui.

 

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